Modelos de Relações: Monogamia X não Monogamia

09 de Feb de 2022

As relações não devem ser construídas em função da exclusividade, mas sim, com base na responsabilidade

Quantas vezes você sentiu que o seu relacionamento está acima da amizade, ou não chamou sua amiga porque simplesmente não queria atrapalhar o relacionamento dela nesse momento? Quantas vezes sua amiga chama o namorado enquanto está de rolê contigo, dando a entender que ela precisa dar mais atenção para ele nesse exato momento em que vocês estão juntas. Quantas vezes escutou que as pessoas solteiras são infelizes? Tem uma palavra que resume o motivo de tudo isso: a monogamia.

Por um lado, se é falado sobre os mitos do amor romântico e não os mitos da monogamia, como se tratássemos do mesmo tema. Porque a ideia de que necessitamos de uma única pessoa para nos sentirmos completos? Sinto te dizer que isso foi inventado por Aristófanes na Grécia Clássica. Mas adiante surge a ideia de que na vida existe um único amor verdadeiro e que esse amor dura para sempre… Aquela famosa frase “e viveram felizes para sempre”. Assim foram criando-se um a um, ao que chamamos de mitos do amor romântico.

 

 

Por outro lado, durante muitos anos, a monogamia tem sido objeto de estudo muito recorrente da antropologia, em especial para esclarecer se as pessoas são monogâmicas por natureza. Hoje em dia ainda não foi encontrado nenhuma evidência clara de que isso seja assim.

1. O modelo de relacionamento em que crescemos

Se olharmos ao nosso redor constatamos que a monogamia é a prática mais comum de amor, porém não a única. As relações monogâmicas existem desde sempre (sem ir longe, Frida Kahlo e Diego Rivera tinham uma relação poliamorosa, assim como Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre; Will Smith e Jada Pinkett têm uma relação sem exclusividade sexual). Segundo uma pesquisa da Universidade de Palermo, 25% dos jovens entre 18 e 30 anos acreditam nas relações afetivas com mais de uma pessoa. Porvir, um estudo do Jornal of Sex Research detectou que durante esta última década houve um aumento de buscas sobre as relações abertas no Google. Assim, é evidente que nos últimos anos houve um crescimento de interesse por esse tipo de relação.

 

 

Não quer dizer que a monogamia seja boa ou ruim, mas sim que precisa ser uma escolha e não uma imposição. Para que seja uma escolha consciente é fundamental nos perguntarmos “Como eu entendo o amor e as relações?”, e também compreender o que é a monogamia e quais são as suas alternativas. É importante observar que há tendência geral no pensamento de que tudo o que não é monogamia é poliamor e isso não tem porque ser assim. Vamos esclarecer essa confusão.

2. Relacionamentos monogâmicos: uma questão de exclusividade

Por um lado a monogamia é um modelo de relação amorosa baseado na exclusividade sexual, afetiva e romântica entre duas pessoas. Nesse modelo de relacionamento presente e predominante em (quase) todos os filmes e séries que você já assistiu: Rachel e Ross, Homer e Marge, Cam e Mitchell e uma longa lista de exemplos. Se uma das pessoas quebra o pacto de exclusividade sexual, é considerada infiel. Há muitas interpretações de infidelidade com pessoas: algumas consideram que a infidelidade está em fazer sexo com outra pessoa, outras em beijar… Depende do acordo que foi combinado na relação. Apesar disso, esse debate sobre infidelidade é assunto para outro dia.

3. Relacionamentos não monogâmicos: um universo de possibilidades

Por outro lado, quando falamos de relacionamentos não monogâmicos estamos falando de diferentes acordos não tradicionais, que vão desde o poliamor e as relações abertas até a anarquia relacional. Existem muitos tipos de monogamia, que se caracterizam por serem modelos de relacionamentos que não tem exclusividade sexual ou afetiva. Logo adiante te explicamos quais são os mais comuns.

4. Swinging ou troca de casais

Neste modelo relacional existe exclusividade afetiva, mas não existe exclusividade sexual. Tem uma particularidade: o seu par precisa estar presente enquanto você ou os dois mantêm relações íntimas com outras pessoas.

5. Relacionamentos sem exclusividade sexual

Este modelo de relacionamento é caracterizado pela exclusividade afetiva, mas não tem exclusividade sexual. Nesse sentido, é igual como o swinging. A principal diferença entre os relacionamentos sem exclusividade sexual é que o seu par não precisa estar presente quando você mantém relações sexuais com outras pessoas.

6. Poliamor

Nos relacionamentos poliamorosos não existe exclusividade sexual, afetiva e romântica. Tanto você, como o seu par pode manter relações sexuais e afetivas com outras pessoas de fora da relação. Do ponto de vista estrutural, existem dois tipos de relacionamentos poliamorosos:

6.1. Poliamor hierárquico

Neste modelo de relacionamento temos uma relação principal e o restante das relações secundárias. Imagine uma pirâmide, na cúpula está o relacionamento principal, que é a prioridade e goza de todos os privilégios. Normalmente, a relação principal é caracterizada por um projeto de vida em comum, compartilhar a mesma casa, gastos, filhos… Embaixo da relação principal estão os relacionamentos secundários, as outras pessoas com que tem uma conexão sexual afetiva, mas não gozam dos mesmos privilégios como na relação principal.

6.2. Poliamor não hierárquico

Neste modelo de relacionamento não existem relações prioritárias, todas estão no mesmo nível. Todos gozam dos mesmos privilégios e prioridades. Todos os relacionamentos possuem o mesmo valor.

7. Polifidelidade

É um modelo relacional que se pratica dentro de um grupo de pessoas. Podendo ser entre três, quatro, vinte pessoas ou quantas quiserem. A característica principal é um acordo de exclusividade sexual, afetiva ou ambas entre essas pessoas. Basicamente é estabelecer que, quem forma parte do grupo se compromete a não manter relações sexuais e afetivas com pessoas que estejam fora desse grupo. Nasérie da Netflix “You Me Her”, podemos ver um exemplo de relacionamento de polifidelidade.

 

8. Anarquia relacional

A anarquia relacional é bem mais uma filosofia de vida que pretende questionar a organização social, desmistificando a ideia das hierarquias e dos privilégios afetivos. É caracterizada por estabelecer relações onde não há exclusividade sexual e nem afetiva. A anarquia relacional tem uma peculiaridade: todas as relações que você tem em sua vida, sejam românticas ou não, estão no mesmo nível. Isso quer dizer que suas amizades, familiares, as pessoas com quem você mantém relações sexuais tem a mesma importância e prioridade. Todas estão no mesmo degrau. Por esse motivo desaparecem as chamadas “tags”. Deixamos de falar de casais, namorados, amizades coloridas para falar de uma rede de amor.

9. Responsabilidade afetiva, a chave das relações

Uma das contribuições mais interessantes feitas recentemente sobre a monogamia e as relações não monogâmicas provém do trabalho da escritora Brigitte Vasallo. Em seu livro “Pensamento monogâmico, terror poliamoroso” ela defende que todos nós entendemos errado a monogamia. Ela não é uma prática e sim um sistema de pensamentos, um conjunto de dogmas. Nossas crenças atuais organizam os afetos e as relações a nível social e de forma hierárquica. Por isso, sentimos que os relacionamentos de casal são mais importantes que as amizades. Na ponta superior da pirâmide está o casal, embaixo a família e mais na base estão as amizades.

Para Brigitte Vasallo, todos os modelos de relações sejam ou não monogâmicos estão viciados pela forma com a que construímos as relações. O amor romântico (o amor Disney, como chama Vasallo), fez com que quiséssemos fugir da monogamia e recorrer a modelos relacionais não monogâmicos, muitas vezes como uma tentativa de parecer mais “cool”. Segundo a autora, o poliamor pode ser monogamia com outro nome, é dizer que o problema é estrutural e a solução para ter bons relacionamentos não está precisamente em acrescentar mais pessoas, a solução passa por construir relações diferentes que nos permita sermos livres, nos apaixonar e disfrutar da nossa sexualidade sem que ninguém se quebre no caminho. Em outras palavras, é construir relações baseadas na responsabilidade afetiva e na comunicação.